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Recordando a prima Rosa Salsa

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No dia 18 de abril de 2010, registei o falecimento da minha prima Rosa Salsa, uma prima muito amiga que jamais esquecerei. Quando hoje me lembrei dela, o que acontece com frequência, fui à procura do que há anos havia escrito. Partilho com os meus leitores atuais o que então me ocorreu escrever. E faço-o com a certeza de que cumpro o dever de manter viva a memória da sua bondade e da sua amizade. 
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Há momentos difíceis na vida. A partida de alguém muito querido é sempre um motivo de grande dor. E quando esse alguém é uma pessoa que nos marcou na vida, pela sua bondade pura e generosidade sem limites, então a dor é muito maior. A minha prima Rosa Salsa era uma amiga muito próxima, apesar da diferença de idades, e ocupava um lugar especial no meu coração. Confidente que me ouvia e aconselhava nas horas mais difíceis e comigo ria nas horas de felicidade. Mulher de fé profunda oferecia a quem a ouvia palavras de esperança alicerçadas na Boa Nova de Jesus Cristo. A sua vida era uma ora…

Tenho fome de conhecer o mundo

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Quando leio, vejo ou oiço descrições de viagens pelo mundo, bem contadas, sou invadido pela tristeza e pela certeza da minha dificuldade em ir confirmar, in loco, as belezas retratadas. Há pessoas com sorte na vida. Nesse aspeto, embora tenha passado por alguns países da Europa, nunca pude fixar-me em qualquer deles, uns simples dias, para visitar as memórias das grandes cidades. E em Portugal, que conheço um pouco, ainda estou longe de apreciar, com a profundidade que frequentemente sonho, muitos dos seus recantos. Não sei porquê, mas a história e a vida dos grandes burgos, como a pacatez das pequenas povoações, sempre me atraíram. Gosto de me confrontar com hábitos diversos, de apreciar marcas do passado, de ver e ler os feitos dos íncolas, de contemplar as paisagens que nos oferecem cores, formas e cheiros variegados. Gosto de experimentar ares frescos e calores que aquecem realmente, gosto de contemplar gentes no seu casario tradicional, de calcorrear ruas sinuosas e rios cantante…

Momentos: Instabilidade

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Em 1 de agosto de 2010 passei por este local, em Vouzela, com pedras em posição instável. Era só aparência, que as pedras não caíram ali por artes mágicas, antes foram postas de forma garantidamente segura. Mas crianças e adultos que passavam olharam espantados para a aparente instabilidade.  A vida por vezes oferece-nos situações destas. Parece que tudo corre bem e, de repente, ficamos periclitantes, cai que não cai. Hoje, ao receber o convite telefónico para o almoço de antigos alunos da EICA (Escola Industrial e Comercial de Aveiro) fiquei surpreendido com a morte inesperada de amigos. Da minha idade… está bem de ver. Outros já nem atenderam a chamada. A vida é mesmo assim. Os meus pêsames às suas famílias. Bom domingo para todos os meus antigos colegas e amigos.
Fernando Martins

Mas logo o sol brilhou

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Na sala de espera do Instituto Português de Oncologia está sempre patente o rosto do País doente. E se não faltam expressões de dor, também nos confrontamos sempre com sinais de esperança. Hoje [28 de abril de 2008] estive em Coimbra como acompanhante de um familiar, para consulta de rotina. Nada de grave, é certo, mas é bom cultivar a prevenção. E ali, na sala de espera cheia de pacientes e acompanhantes, os meus olhos saltitaram de rosto para rosto, na ânsia de perscrutar o que ia na alma de cada um. Uns denotavam tranquilidade, outros refletiam angústias, outros acreditavam na cura, outros fixavam os seus olhares num horizonte muito longe dali. Falta de cabelo disfarçada com lenço garrido em forma de chapéu que mãos hábeis souberam aconchegar, rostos macilentos, ternura em casais mais jovens e menos jovens, solidão de quem está só e que chega com bombeiro a ajudar. Todos os dias é isto. Mas hoje ainda reparei nos voluntários que dão a sua alegria aos pacientes. Uns que acompanham …

O Douro

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“Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho… Beleza não falta em qualquer tempo, porque onde haja uma vela de barco e uma escadaria de Olimpo ela existe.”

Miguel Torga, in “Portugal”

Ontem [10 de setembro de 2008] subi o Douro com olhos bem abertos à contemplação das belezas de que tanto tenho ouvido falar. E lido, em autores que cantam o rio que cortou cerce o seu leito, deixando marcas de feridas que os séculos fizeram secar. As chagas sararam, mas as crostas ressequidas lá estão, oferecendo a quem as aprecia a dureza da corrida desenfreada das águas soltas e apressadas com vontade de descansarem no oceano. E se a beleza da paisagem é indiscutível, ao modo de nos obrigar a voltar, a paisagem bonita das velas dos barcos, de que fala Miguel Torga, já se foi com a voracidade do progresso.




Os rabelos há muito que perderam o privilégio de temperar e refinar o Vinho Fino nas bolandas da descida da R…

Ribeira Grande

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«A estrada sobe, a estrada desce, e a vegetação é cada vez mais impetuosa e forte. Já ao longe reluz uma brancura — Ribeira Grande. O panorama alarga-se, mas as nuvens começam a forrar o céu e o cheiro da humidade a entrar-me pelas ventas. Todo este ar lavado e amplo se emborralha. O calor amolece. Mais um lanço de estrada que sobe, e tenho diante de mim a rica planície da Ribeira Grande, largo quadro de tons variados, desde o loiro do trigo até ao verde-escuro do milho. Ao fundo, a toda a largura do céu, uma nuvem recortada e imóvel, estendida como um toldo, deixa um feixe de sol iluminar o oceano, enquanto o campo se conserva envolto em claridade esbranquiçada e magnética até à linha cinzenta dos montes.»
Raul Brandão,  1924, 4 de agosto

Ao volante do seu carro, que chiava a cada curva apertada e roncava em cada subida íngreme, com montes teimosamente no horizonte e mar em múltiplas esquinas, o meu João Paulo não se cansava de nos indicar povoações, miradouros, culturas e gentes. Tr…

Um dia enriquecedor

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Aprendi paciência, humildade e...
Ontem [18 de maio de 2007] estive umas boas horas no Hospital Infante D. Pedro. Para consulta de rotina e como acompanhante de um familiar com um incómodo que aconselhava o Serviço de Urgência. Olhando pela positiva, foi um dia enriquecedor. Aprendi paciência, humildade, respeito pelos outros, compreensão pelas dificuldades de profissionais e utentes, aceitação do sofrimento, atenção aos mais idosos, apreciei a disponibilidade de muitos, tentei ler o que vai na alma de alguns. O tempo de espera deu para muito.  Aos hospitais chega de tudo. Gente idosa e mais nova, gente que vem acompanhada e gente que vem só, gente que tem tudo e gente a quem falta tanta coisa, gente que sofre e gente tranquila, gente com dores e gente que sabe consolar, gente que se senta e gente que procura ajudar quem chega.  Para ajudar, não faltou a oferta de chá, café, leite e bolachas, graças à colaboração de voluntários hospitalares. Eram duas senhoras simpáticas e bem dispost…

O João que nunca descobriu o truque

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Olhou para mim e perguntou:  — Não me conheces? — Não! — respondi. Olhei melhor e a sua expressão dizia-me qualquer coisa. Nem assim consegui reconhecê-lo. Foi então que ele me disse de quem era filho. E de imediato tudo se tornou claro. Era o João. Aí começou a animar-me a minha memória. Que me visitava frequentemente quando na juventude estive doente dos pulmões e acamado. Que gostava de conversar comigo e dos truques que eu fazia para entreter os amigos que vinham saber da minha saúde. Só não conseguiu perceber como é que eu fazia desaparecer a moeda que caía no copo de água.  — Ainda hoje me lembro desse truque e nunca descobri como é que fazias aquilo. — São truques… — adiantei eu. Falou-me dos pais, dos filhos e da reforma que está a viver.  Disse-me que muitas vezes se tem cruzado comigo sem nunca ter tido a coragem de me interpelar. Ralhei com ele e disse-lhe que nunca mais fizesse isso. Gosto que me falem ajudando-me a recordar o passado. Não faz sentido passar por alguém qu…

A chegada do navio ao cais

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A vida dos marítimos é ingrata. Longe das famílias e amigos, os trabalhos de bordo não lhes dão descanso. Quando eu era menino e moço, nos lugres e arrastões não havia horas de trabalho e o descanso era reduzido. Alguém disse um dia que os marítimos da nossa frota eram autênticos escravos. Presentemente, não será assim, mas o dia a dia nos navios, longe dos ambientes de terra, continuará duro. Nas famílias, escrevi um dia, na hora da partida viviam-se momentos de silêncio e dor. Era certo que só daí a uns meses voltaríamos a sentir o amor dos nossos pais e amigos. A alegria vinha depois, com hora marcada na entrada da barra e na atracação dos navios no cais. A espera incomodava, mas estava alimentada pela certeza do abraço e do beijo iminentes.  Ontem tive o privilégio ou sorte de assistir à chegada de um navio ao cais do porto de pesca longínqua, na Cale da Vila, Gafanha da Nazaré. Curiosos e familiares, estes mais próximos do navio, esperavam ansiosos os seus entes queridos.

A Ponte da Cambeia

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A Ponte da Cambeia era, na minha infância, o centro de muita vida. Ali esperávamos os barcos mercantéis que traziam, das feiras de Aveiro e da Vista Alegre, as mercadorias adquiridas pelos gafanhões. Eram entregues ao barqueiro, com sinais identificativos, e na hora combinada, conforme a maré, eram esperadas pelos seus donos. Nesta ponte e noutros locais das Gafanhas. Quando havia atraso, os barqueiros deixavam-nas ali mesmo, na certeza de que não haveria ladrões. Na ponte, pudemos assistir a manobras arriscadas, em dias de temporal, com os homens do leme a orientarem as embarcações, com rigor, para passarem sem perigo. Nadava-se, conversava-se, atiravam-se piadas aos barqueiros, com perguntas ingénuas e algumas vezes maldosas: “Quem é o macaco que vai ao leme?” Recordo-me, bem, da pesca do safio. Vara forte, com arame numa ponta. Preso tinha o anzol. Enfiava-se na toca onde se refugiava o safio e esperava-se que ele atacasse o isco. Depois, com força, puxava-se, puxava-se, que ele o…